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Vozes que falam ao coração das pessoas
Cátia Cardoso, Filipe Ricardo e Dina Karma contam à Agência de Informação Norte como a rádio local cria laços com os ouvintes. Entre dificuldades financeiras, histórias de amizade e projetos para o futuro, defendem a proximidade como a força deste meio.
10 de outubro 2026

Há quem ligue o rádio para ouvir música, acompanhar as notícias ou saber o que acontece na sua terra. Outros procuram uma voz familiar, uma companhia que ajude a enfrentar a solidão. Cátia Cardoso, da Rádio Limite, em Castro Daire, Filipe Ricardo, da Rádio Ansiães, e Dina Karma, do Rádio Clube de Armamar, conhecem essa relação. Têm percursos diferentes, mas partilham uma ligação à rádio que ultrapassa o trabalho e se prolonga na vida das comunidades.
Cátia Cardoso chegou à rádio “de paraquedas”. Com formação em multimédia, nunca imaginou trabalhar em comunicação. Experimentou, gostou e, desde 2013, está na Rádio Limite. Quando lhe perguntam se a rádio é uma profissão ou uma forma de vida, não hesita: “É uma forma de vida, sem dúvida. Vai muito além de uma profissão”. A ligação tornou-se tão próxima que nem sempre é fácil separar o trabalho da vida pessoal. “Não me custa estar aqui nem fazer este trabalho, porque sinto que a rádio é casa”.
Para Filipe Ricardo, tudo começou como um passatempo ao fim de semana, entre cassetes, discos de vinil, CDs e uma mesa de mistura. Um dia, pediram-lhe para substituir uma colega num programa de discos pedidos. “Pronto, fui ‘apanhado’”. Nunca mais largou o microfone e soma 32 anos de dedicação à rádio. Os discos pedidos continuam a ser uma tradição que considera essencial.
Dina Karma cresceu a ouvir rádio. Tentou seguir outros caminhos, mas acabava por regressar. “A Rádio entrou na minha vida sem pedir licença”. Estreou-se na área das notícias, numa rádio FM entretanto extinta, depois de lhe dizerem que tinha perfil e voz. Seguiram-se outras rádios, projetos na internet, fotografia, vídeo, edição de áudio e vídeo, diretos no exterior, apresentação de eventos, Web-TV, moderação de programas, programação cultural, contacto com artistas e escrita em revistas digitais. Hoje, encontra uma ligação entre essas experiências. “A ‘Rádio’ não foi algo que eu tivesse perseguido como objetivo. Apenas considero que foi o lugar onde desaguou tudo aquilo que eu já era”. Ao microfone, assume uma missão: “Fazer de cada emissão abraços sonoros”.
A companhia que se torna amizade
Na Rádio Limite, os ouvintes telefonam para conversar, contar histórias, partilhar problemas ou celebrar momentos felizes. Há emigrantes que, quando regressam a Portugal, fazem questão de visitar a estação. Outros vivem sozinhos e encontram na emissão diária uma companhia. “Alguns ouvintes deixaram de ser apenas ouvintes e tornaram-se família”, conta Cátia.
Entre as histórias que guarda está a de um ouvinte invisual com quem conversava frequentemente. A forma como ele descrevia o mundo despertou-lhe a vontade de o conhecer. Foi à terra onde vivia, encontrou-o junto a um café e conversaram. Ele tocou-lhe no rosto para a conhecer. Hoje, considera-o família. Recorda também Diamantino, emigrante na Alemanha, que atravessava um grave problema de saúde e passava os dias a ouvir a Rádio Limite. A mulher encontrava-o a rir e, quando lhe perguntava porquê, respondia: “Estou a ouvir aquela maluquinha da Cátia”. Um dia, apareceu de surpresa na rádio e abraçou a locutora a chorar. A relação transformou-se numa amizade e Cátia chegou a estar presente no casamento dos filhos.
Filipe Ricardo vê como um privilégio saber que alguém liga o rádio para ouvir a sua voz, a música que escolhe ou a forma como conduz o programa. Essa ligação traz também responsabilidade. “Fazem-me querer melhorar e levar para o programa o melhor de mim”. Não esquece uma ouvinte que lhe telefonou em privado para dizer que gostava de chegar a casa, sentar-se no sofá e ouvi-lo, porque a sua voz a relaxava. “Como não nos sentirmos felizes com isso?”.
Dina Karma procura criar essa presença através de pequenos rituais: uma música de “bom dia”, outra de “boa tarde” e uma despedida acompanhada por uma reflexão sobre o que marcou o dia. “Os ouvintes sabem que àquela hora exata, a minha voz familiar está lá”. Acredita que essa regularidade transmite segurança e que a relação com quem escuta exige respeito, cuidado e capacidade de ouvir. “É como entrar nos espaços sagrados deles, sem invasão”.
Por vezes, essa ligação também aproxima os próprios ouvintes. Um entra em antena, pergunta por outro e, pouco depois, esse outro aparece. Para Dina, são momentos em que a rádio ajuda a aliviar a solidão. “Quando a voz não é simplesmente uma voz, mas uma voz que é acompanhada do coração, dão-se os raros milagres que só algumas rádios conseguem realizar”.
Os dias difíceis de quem está em antena
Quem faz companhia aos outros também enfrenta momentos difíceis. Cátia já entrou em direto depois de perder pessoas importantes e procurou não transportar essa dor para a emissão. “Quem está em casa não tem de carregar a minha tristeza”. Filipe descreve o tempo em antena como um refúgio, durante o qual os problemas parecem desaparecer. No final, resume o que sente em três palavras: “Saio reparado”.
Para Dina, a preparação de uma emissão envolve técnica, disciplina, revisão dos conteúdos, hidratação e concentração, mas também gestão emocional. Nos trajetos, pratica meditação e, quando chega ao estúdio, procura concentrar-se no presente. A rádio tornou-se uma âncora psicológica, com particular importância perante os problemas graves de saúde que atravessa.
A locutora fala abertamente do cancro e do caminho que ainda tem pela frente, mas recusa colocar a doença no centro da sua identidade. Quer continuar ao microfone e transformar a sua experiência numa mensagem de esperança. Neste percurso, destaca o apoio que recebeu da rádio. O diretor, dr. David, colocou a recuperação acima das audiências, respeitou o tempo necessário para os tratamentos e manteve o apoio. Para Dina, ficou uma lição: “O valor humano acima das audiências”.
Dar voz ao que acontece perto
A proximidade também se constrói fora do estúdio. Dina tem acompanhado feiras, cerimónias, encontros culturais e desportivos, homenagens literárias e acontecimentos em locais tão diferentes como cemitérios e espaços do Douro. Num barco rabelo, enfrentou o desafio de descrever o que acontecia para que os ouvintes pudessem imaginar a cena. Mais tarde, levou a região à Bolsa de Turismo de Lisboa, onde se sentiu uma embaixadora do território.
É nessa atenção ao quotidiano que encontra uma das principais diferenças entre a rádio local e a nacional. Um problema numa rua de uma aldeia, o aniversário de uma ouvinte ou a atividade de uma pequena associação podem ter pouco espaço nos meios nacionais, mas são relevantes para quem vive nessas comunidades. “A maior força da rádio regional é o hiperlocalismo”, defende. Considera, por isso, que estas rádios devem ser mais valorizadas pelo serviço que prestam aos territórios.
A ligação aos ouvintes passa também pela partilha de conhecimento. Filipe gosta de transformar assuntos simples em oportunidades de descoberta. Um passatempo sobre o preço do café pode dar origem a uma conversa sobre a produção, o processo de fabrico e as curiosidades do produto. Dina gostaria de desenvolver programas didáticos para crianças, conteúdos musicais diferentes e projetos que aproximassem a rádio da comunidade, reforçando o seu papel na informação e na cidadania.
Manter a rádio aberta e pensar no futuro
A vontade de fazer mais convive com dificuldades financeiras. Há salários, equipamentos e despesas a pagar, além de uma estrutura que precisa de continuar a produzir conteúdos. Na Rádio Limite, Cátia tem ideias e vontade de crescer, mas reconhece a prioridade: “Primeiro, precisamos de ultrapassar algumas dificuldades financeiras e garantir aquilo que é essencial: manter a rádio aberta”. Dina defende maior apoio dos municípios, mais investimento público e uma relação mais próxima entre rádios regionais, instituições, empresas e comunidades, como reconhecimento do serviço que prestam.
Apesar dos obstáculos, os três continuam a pensar no futuro. Cátia defende a aposta nas redes sociais e no digital, mantendo a emissão em FM. Filipe procura mudanças que melhorem os programas e a relação com os ouvintes. Dina imagina um estúdio móvel num mercado municipal, programas a partir de IPSS, quartéis de bombeiros, escolas e associações culturais. Gostaria também de criar uma rubrica em que a rádio fosse “tomar café” com um ouvinte, surpreendendo-o e dando-lhe voz.
Entre os projetos de Dina estão ainda uma maior ligação à imprensa local e uma televisão regional associada à rádio, que permita ver e ouvir o que acontece no território. Acredita que essa aposta poderia reforçar a projeção da região, a economia local e a identidade das comunidades. Propõe também uma campanha que incentive os estabelecimentos comerciais a ouvir rádios regionais. Para os três profissionais, a relação com quem está do outro lado continua a dar sentido ao trabalho, mesmo com a mudança das tecnologias e dos hábitos de escuta.



