Entrevistas
José Rodrigues: “A nossa maior virtude é a bondade”
A vendedora de flores é o sétimo romance de José Rodrigues. O escritor de Viseu traz-nos o poder silencioso da bondade e coloca-nos num lugar onde "a grandeza humana não é compatível com o ódio, com a indiferença, mas sim com o amor e com o cuidado". Com chancela da Porto Editora e inspiração fotográfica de Sara Augusto, amiga e cúmplice de longa data, que ilustra os vários capítulos do livro com imagens únicas.
6 de abril 2026

No livro, Cidália decide agir precisamente quando a neta sai de casa, confrontando-se com a ausência. Na sua perspetiva de autor, a solidão deve ser encarada como um vazio que urge ocupar com ação ou, pelo contrário, como um silêncio que precisamos de aprender a escutar?
Nem sempre a solidão coincide com o silêncio. Por vezes, estamos rodeados de gente e barulho e sentimo-nos sós. Não faltavam à personagem principal, a nossa Cidália, pessoas e afetos. No entanto, há pessoas que conhecemos ao longo da vida e que nos deixam marcas muito positivas, por todos os motivos. Quando deixamos que o tempo passe e nada sabemos delas, a saudade bate. Por vezes, de forma tão forte que é quase impossível de aguentar. Quando assim é, instala-se o tal vazio gigante e torna-se urgente fazer-se alguma coisa quanto a isso.
A narrativa celebra o que chama de “poder silencioso da bondade”. Durante o processo criativo, houve algum momento específico em que sentiu que um pequeno gesto espontâneo de uma personagem acabou por alterar o rumo planeado para toda a história?
Durante a narrativa, não. No entanto, e felizmente, sinto-me um privilegiado por ter conhecido, ao longo da minha vida, muitos gestos de bondade. Vivemos um tempo em que a bondade escasseia, em que trazemos outras questões para as nossas vidas e lhes damos uma importância que muitas vezes não têm. António Lobo Antunes, numa entrevista ao Jornal de Notícias, disse “Temos a mania que a inteligência é a nossa maior virtude, mas a nossa maior virtude é a bondade”. Acredito piamente nisso e, acreditando nisso, a nossa atenção redobra-se para os pequenos gestos que fazem com que as vidas de quem nos rodeia se tornem melhores.
As flores funcionam como uma linguagem paralela na obra. Se pudéssemos destilar esta história e transformá-la num perfume, que aroma teria, para si, o reencontro entre Cidália e Isménia?
Não sou um especialista em perfumes (risos). Certamente, um perfume suave, mas daqueles que parecem ficar para sempre na pele. Daqueles que, por mais tempo que passe, estejamos onde estivermos, nos fazem lembrar de alguém que nos marcou. Não sei se existe algum perfume resultado da flor de açafrão bravo, mas, sendo esta a flor rainha do livro, entre tantas outras, teria de ser esse o aroma.
Muitos leitores descrevem a sua escrita como um “abraço”. Como é que trabalha a sua sensibilidade para conseguir ouvir e dar voz a estas mulheres que a sociedade, tantas vezes, insiste em tornar invisíveis?
Não trabalho a sensibilidade. Deixo-me andar entre a família, os amigos, o desporto, os livros que leio e escrevo. Porém, à medida que o tempo vai passando, vou reconhecendo que dou cada vez mais importância às coisas mais simples, sobretudo quando tive a certeza de que não somos imortais. Vivemos muitos anos a pensar que somos. Vejo imensas pessoas ao meu lado, muitas delas já com idade bastante avançada, que são capazes de viver sem olhar para o lado, sem conseguirem perceber que alguém, bem perto, emite sinais de que precisa de ajuda, seja qual for. Lá está, por vezes, um abraço é a maior ajuda que pode acontecer. Não podemos pensar que o que acontece a quem está ao nosso lado não é da nossa responsabilidade…
A amizade na idade adulta é um assunto central. Considera que, nesta fase da vida, os laços de amizade são mais uma estratégia de sobrevivência emocional ou um luxo que só a maturidade e o tempo nos permitem saborear plenamente?
A amizade tem uma importância gigante na minha vida. Se o tem na minha vida e a escrita também faz parte do meu mecanismo de sobrevivência, vejo com naturalidade trazer a amizade para tudo o que escrevo. Na verdade, digo-o constantemente, a amizade é uma forma de amor. Nasce como um sopro leve e fica. Os amigos são encontros de alma, onde o tempo desacelera e o coração encontra abrigo. Os amigos seguram-nos o mundo e são os amigos que nos recordam quem somos. E, quando a vida espalha distâncias, a amizade permanece como se fosse uma estrela que nunca se apaga. É por isso que, mesmo de longe, conseguimos sentir a força imparável do abraço dos nossos amigos. Não imagino a vida sem eles.
É conhecida a sua entrega pessoal a causas solidárias. Em que medida a urgência da Cidália em ajudar e reencontrar a sua amiga é um espelho da sua própria necessidade de intervir no mundo e ajudar o próximo?
Eu diria que essa questão das causas solidárias tem a ver com a importância que damos à empatia e até que ponto ela está presente nas nossas vidas. A dor do outro, a dor de quem sofre, de quem precisa de algo, deixa de ser um fardo solitário se formos empáticos. A grandeza humana não é compatível com o ódio, com a indiferença, mas sim com o amor e com o cuidado. Eu gosto de ver o ser humano a ser humano. Gosto de ver as pessoas a despirem o seu olhar e a vestirem os olhos do outro, ajudando a que o mundo se torne um lugar menos estranho, menos áspero e mais habitável. A vida é infinitamente mais bela se formos empáticos.
Para fechar, se pudesse oferecer a cada leitor uma flor de papel, daquelas que nunca murcham, que mensagem curta e essencial gostaria de ver escrita em cada pétala?
Flor nenhuma se embeleza quando à sua volta existem corações onde a bondade não vive.
Andreia Gonçalves
Foto: DR



