
Fui buscá-lo à estação de comboio. Apenas conhecia o nome, que o Alto Comissariado para as Migrações me tinha enviado, a idade é a profissão. Era isolado, o que significa na linguagem de trabalhos deles, chegou sozinho.
Sabia, também, que havia um lugar cheio de paz para ele dormir nas próximas horas, se conseguisse. Trazia consigo uma mochila, como se viesse passar um fim de semana. Olhos azuis gelados pelos últimos dias, passados na Ucrânia e durante a fuga até Portugal. Não é obrigatório para um homem ucraniano lutar nesta Guerra. É uma opção. Ou por vezes coação. Mas, ele, permitiu ouvir o seu coração e lutar pela vida, em Portugal.
A viagem foi em inglês. Onde eu tentei falar de tudo, menos do assunto que está na ordem do dia. Ele, com um sorriso tímido foi libertando algumas frases do trauma que trazia. Foram os quarenta e cinco minutos mais dolorosos da minha audição empática.
O meu filho, que fazia a viagem connosco, foi ouvindo a conversa sem nunca interromper. Até que a dada altura chamou o rapaz pelo nome e em português disse: – Agora, eu sou teu amigo.
Traduzi cheia de lágrimas. Parecia ter entendido a conversa toda, não pelas palavras, mas com o coração.
Não me esquecerei do abraço que o meu filho lhe deu antes de o deixar a salvo.
Nos dias seguintes criamos um elo de ligação. Que já tinha nascido sem querer.
Nos últimos dias ouvi desabafos, medos, senti o suspiro quase sufocado num abraço.
A cada dia a história trazia mais tristeza dos lugares por onde ele passara e vivera anos atrás e por onde as bombas têm deixado a destruição. Relatos de acontecimentos de amigos e família. Pergunta aos amigos se estão vivos à cada notícia publicada. Fico anestesiada com o terror.
Guardo tudo o que partilha comigo numa gaveta que abri só pra ele. Adotei um irmão desde o primeiro minuto. E a verdade é que é dessa forma que lhe acabei de dizer boa noite.
“Dorme bem irmão”. E ele, agradeceu chamando-me de “irmã”. A família também se escolhe.
E, no azul lindo do céu vejo esperança e nos olhos dele, o futuro, apesar de tantos pontos de interrogação.
Andreia Carneiro



