EntrevistasGaleriaNotíciasVideos

“O vazio do tempo por Manuel Jorge Marmelo” (Com vídeo)

Um jornalista desempregado com uma relação próxima com uma estrela televisiva mestiça. Este homem sem trabalho e a quem o tempo sobeja é o protagonista do novo romance do escritor Manuel Jorge Marmelo. “O Tempo Morto é um Bom Lugar” é uma incursão pelos momentos mortos, em que a falta de rotinas e a falta de pressões de qualquer espécie serve também de reflexão sobre o sentido da vida e sobre a sociedade pouco solidária em relação aos outros menos afortunados.
Qualquer semelhança entre a ficção e a realidade esgota-se na mera circunstância de o autor também ter estado desempregado enquanto escrevia este romance. O lançamento de “O Tempo Morto é um Bom Lugar”, o décimo quarto romance de Manuel Jorge Marmelo, é o pretexto para a entrevista que o escritor deu à Agência de Informação Regional – Norte.

Autor de cerca de 25 obras, entre as quais romances, crónicas, contos e livros infantis, Manuel Jorge Marmelo foi, recentemente, galardoado com o Prémio Correntes d’ Escritas/Casino da Póvoa 2014, pelo romance “Uma Mentira Mil Vezes Repetida”, um prémio que mudou a sua vida, como ele explica nesta entrevista, e atribuído porque o júri considerou tratar-se de “uma singular parábola sobre a literatura e o seu poder redentor”, que confirma “a maturidade do autor no domínio da narrativa”.

A mestria literária do ex-jornalista e antigo aluno de Filosofia também já tinha sido distinguida em 2005, com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, pelo livro de contos “O silêncio de um homem só”, e, em 1996, com a menção honrosa dos Prémios Gazeta de Jornalismo do Clube de Jornalismo/Press Club. Desde 2001 que o nome de Manuel Jorge Marmelo consta do “Dicionário de Personalidades Portuenses do século XX”, da Porto Editora, sendo o mais jovem dos biografados.

Natural do Porto, a cidade que já descreveu em vários livros, se não fosse nortenho e português, talvez o encontrássemos a correr (um dos seus passatempos habituais) numa praia de Cabo Verde ou a dançar uma morna num bar daquele país pelo qual se apaixonou e cuja geografia e cultura servem de pano de fundo a muitas das suas ficções e de que “As sereias do Mindelo” é o expoente máximo.
Homem de afectos, aprendiz de relações humanas, ser insatisfeito e mestre na arte de dar sentidos às palavras, Manuel Jorge Marmelo jorra-nos de verdade com a liberdade que a literatura nos confere para mentir.

ENTREVISTA

– AIRInformação – É arriscado dizer que «O Tempo Morto é um Bom Lugar» é o seu melhor romance?
– Manuel Jorge Marmelo – É sempre arriscado afirmar juízos absolutos relativamente à apreciação subjectiva de um objecto artístico. Haverá pessoas que gostem mais de outro livro anterior e que considerem este demasiado denso e aborrecido.

– Uma das personagens deste seu último livro é um jornalista desempregado. Um cheirinho a autobiografia?
– Sim, o ponto de partida é autobiográfico. Eu também era um jornalista desempregado enquanto escrevia o romance. Mas daí para a frente entra a ficção e a biografia dissolve-se. O livro não é sobre a minha vida, quanto mais não fosse porque – presunção metafísica à parte – eu já nem sequer sou a mesma pessoa que escreveu o livro. Desde logo, porque já não sou um desempregado.

– Neste livro, misturam-se vários géneros literários e a história gira ao redor de Herculano Vermelho, um jornalista desempregado. Qual é a grande mensagem deste romance?
– Não sei se há uma grande mensagem neste romance. Há, isso sim, uma série de reflexões sobre o tempo em que vivemos e o modo como estamos a transformar-nos numa sociedade pouco solidária, agressiva para com os menos afortunados, amedrontada e mesquinha. Estamos num ponto em que desconfiamos e perseguimos o desgraçado da esquina (e permitimos que o Estado o faça), sem reparar que os grandes danos são causados pelo próprio Estado que, governo após governo, pactua, protege e patrocina aqueles que mais prejuízos nos causam enquanto colectivo de cidadãos contribuintes.
– Quando as palavras são a matéria-prima, é difícil traçar uma fronteira entre ser escritor e ser jornalista?
– Não. Sempre tive muito presente essa fronteira. Mas por trás de ambos há o homem e o cidadão. E esse tem uma postura ética e cívica que, admito, possa estar presente em ambas as actividades.

– As maneiras de olhar a realidade são diferentes? O jornalista e o escritor absorvem e digerem os momentos de formas distintas?
– Depende. É possível fazer jornalismo de um modo mais reflexivo e até mais literário e também é possível fazer literatura reactiva e impulsiva. Trata-se sobretudo de ter presente que estamos a falar de linguagens distintas e de fôlegos diferentes. E acresce que o jornalismo obedece a um conjunto de regras que deve, ou devia, assegurar que cada informação comunicada tende a retratar a realidade e a ser-lhe fiel o mais objectivamente possível. A literatura, como qualquer arte, não tem regras. Permite mentir, mentir absolutamente, e criar uma realidade paralela relativamente à qual a única obrigação é aquela que se estabelece no pacto tácito entre o escritor e cada um dos seus leitores.

– Escrever ajuda a esvaziar a alma?
– Não sei bem o que seja a alma.

– Disse recentemente numa entrevista que a literatura é uma grande ilusão. O que o leva a pensar dessa forma?
– Disse? Já não me lembro. Mas, se o disse, há-de ter sido no mesmo sentido em que se diz que o cinema é uma grande ilusão. Todas as artes o são. Criam uma realidade falsa, ficcionada, ainda que procurem desse modo atingir uma qualquer verdade.

– Mas escrever é um ato de coragem?
– Não. Já não ou ainda não. Sê-lo-ia num outro regime e num outro tempo. Mas hoje vivemos, felizmente, num país que é relativamente democrático e onde a liberdade de expressão está, apesar de tudo, relativamente acautelada, sobretudo se nos compararmos com outros países onde as pessoas são perseguidas pelas opiniões que têm, sejam políticas ou religiosas.
– Distinguido com o Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes D’Escritas 2014 pelo livro «Uma Mentira Mil Vezes Repetida». Agora, «O Tempo é um Lugar Morto». No início, «As Mulheres Deviam Vir com Livro de Instruções» de um jovem jornalista do Porto. O que mudou ao longo dos anos na sua escrita?
– Mudou muita coisa. Também eu mudei. Espero ser hoje um indivíduo mais maduro, um cidadão mais consciente e um escritor que domina melhor as ferramentas do idioma. E espero que isso se note também nos livros que escrevo.

– Este prémio mudou ou alterou muito a sua vida?
– Sim, mudou. Mudou quase tudo. No dia em que o prémio foi anunciado estava descrente, desempregado e até um pouco deprimido. Disse que esperava que o prémio pudesse ser um ponto de viragem. E foi-o. Os meus livros conquistaram mais visibilidade, consegui que os meus editores acreditassem que valia a pena publicar-me outra vez e, por fim, consegui um novo trabalho e encontrei um novo amor. E aconteceu tudo tão depressa que, às vezes, até assusta.

– Quando termina um livro, começa a pensar no próximo ou precisa de tempo para respirar e voltar a escrever?
– Depende. Neste momento, por exemplo, estou a respirar. Tirei uma folga da literatura e estou a dedicar-me ao meu novo trabalho e à minha vida pessoal.

– Disse recentemente que o seu principal sonho enquanto escritor é escrever um livro que tem na cabeça há muito. O que falta para lá chegar?
– Não sei… Se soubesse, seria mais fácil chegar lá. Mas escrever, como viver, faz-se tentando. Algumas vezes, acerta-se, um pouco ao menos.

– Escrever para si é um ato de coragem ou uma necessidade?
– É sobretudo um prazer.

– Aquilo que verificamos é que os seus livros partem muito da sua vida. Enquanto escritor é possível fazer distância entre a realidade e a literatura?
– Não só é possível, como essa distância deve ser rigorosamente observada. Mesmo quando partem da realidade, os livros adquirem imediatamente uma feição não-real. A literatura impõe um filtro à realidade, distorce-a, exagera-a. O desempregado de “O Tempo Morto é um Bom Lugar” sou eu, mas não sou eu.

Tornei-me jornalista profissional com dezoito anos

Todos sabemos que os livros criam mundos paralelos. De que forma se distancia dela enquanto escritor?
– Creio que já o expliquei em respostas anteriores.

-A literatura em Portugal está, neste momento, de boa saúde?
– Creio que sim. Basta ver como, para além dos escritores que já são, de algum modo, clássicos vivos, vem surgindo e afirmando-se uma geração de autores ainda relativamente novos, na casa dos 40 anos, que não param de ser traduzidos nas mais diversas línguas e de conquistar importantes prémios internacionais. Não sei se houve outra geração que tenha tido a felicidade de contar com um Gonçalo M. Tavares, um Afonso Cruz, um Pedro Rosa Mendes, um Valter Hugo Mãe, um José Luís Peixoto, uma Dulce Maria Cardoso.

– O que é que o jornalismo lhe ensinou ao longo dos anos?
– Quase tudo. Tornei-me jornalista profissional com dezoito anos. Não sabia nada. O que aprendi depois e vi depois devo-o em grande parte ao jornalismo.

– Que lugar ocupam todos os seus livros lá em casa?

– Uma parede inteira ao fundo da sala, mais algumas estantes espalhadas por outro sítios da casa.
– Qual é a melhor forma de descrevermos o Manuel Jorge Marmelo?
– Sou suspeito para responder a essa pergunta. Mas espero ser um cidadão livre e consciente, que tenta viver o melhor que pode, honestamente e sem prejudicar ninguém.

– O que é que os leitores desconhecem de si?
– Depende dos leitores… A minha vida privada tem pouco a ver com a minha vida pública. E espero mantê-las assim.

Jornalista: António Gomes Costa

Tags
Show More

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Close