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As sensações e sentimentos de Rui Sobral

Rui Sobral entregou a sua vida à escrita. Aos 12 anos, confessa que já tinha uma sede que desconhecia na altura e que rapidamente se apercebeu o que era: a paixão pela escrita. Com formação em teatro e línguas aplicadas, Rui Sobral, autor e escritor residente em Santo Tirso, possui já um livro publicado, “A nu”, e prepara aquele que será o seu primeiro romance, que chegará aos seus leitores em 2015. Hoje, aos 29 anos, assume que as palavras são para si um encontro de sensações e sentimentos e que tem dificuldade em se definir.
A paixão pelas palavras e o seu percurso como escritor dominaram a entrevista que concedeu à AIRinformação.

AIRinformação – Descobre a poesia de uma forma mais séria com pouco mais de 12 anos. Desde essa altura a sua vida ganhou um rumo diferente?
Rui Sobral – Sim, tomou o rumo certo, considero. A partir dessa altura foi como se tivesse encontrado o meu nome. Foi o desabrochar do meu sentido aqui, porque já antes de me ter assombrado pelas letras por volta dessa idade eu já era um apaixonado pela estranheza, pelo abstracto, pelo invulgar, pela música, enfim, acho que até então era um miúdo que tinha sede de algo que desconhecia – a palavra escrita.
Depois foi ler, ler, ler, ler, procurar, pesquisar e escrever, escrever como respirar.

Mas até aí os poemas iam surgindo e ficavam guardados na gaveta. Não acreditava no que escrevia?
Eu só comecei a escrever após ler de forma obsessiva. Sempre acreditei no que escrevia, contudo, sabia reconhecer a qualidade das coisas. A razão dos escritos – chamam-lhes poesia – terem ficado na gaveta, desordenados, entre riscos e rasgos deve-se às minhas inimigas do antigamente, a preguiça e a falta de determinação para estas coisas. Só isso. Sinto muito por todos os que achavam que era por algum motivo de peso, mas não…

Quando olhamos para si ficamos com a sensação de ter um lado triste…
Óptimo! Assim faz sentido. Esse é um tema que ainda hoje me preocupa, eu francamente não sei definir a minha essência nesta problemática. Costumam perguntar-me tantas vezes se sou triste, infeliz, etc. e eu confesso que nunca sei o que responder, mas a pouco e pouco acho que se todos me vêem assim é porque talvez o seja.
O que sei é que me interesso pela profundidade, pelo sentido comportamental, pelas sensações, pela verdade no fundo mais ínfimo das pessoas e daí não retornam coisas muito alegres. Tenho pena de não ser a moldura mais alegre (risos).

Antes da paixão pela poesia começou pelas cartas de amor?
Acho que nunca escrevi cartas de amor. Francamente, antes da poesia acho que não fiz algo de relevante senão brincar, correr, fugir da escola e pouco mais.

Mas a sua poesia mistura factos reais com ficção ou revela essencialmente o amor?
Bela pergunta! Os meus escritos são um encontro de sensações e sentimentos cruzados com verdades elevadas ao expoente maior da profundidade. O amor está sempre presente, tal como a tristeza, a vida e a morte, a ironia e tudo o que existe sem fim, portanto, não é essencialmente uma relevação do amor em sentido grosso, mas sim uma busca pela relevação de tudo o que sinto em mim e nos outros em mim.
A verdade é que escrevo sobre o que sinto em mim e nos outros, no que vejo em mim e nos outros e por aí fora; por isso, estou em tudo o que escrevo, geralmente de forma indirecta. Ficção e poesia não darão uma boa analogia no meu ponto de vista, mas a verdade é que é disso que se trata. Gosto de dizer que o que escrevo é ficcional, porém tem sempre o carimbo do autor e se assim não for não encontro força, não encontro nome.

A sua primeira obra “A nu” de poesia foi lançada em Junho de 2014. Esta nudez serve essencialmente para que os leitores conheçam a “nu” o autor e os seus poemas de uma forma mais íntima?
A obra “A nu” sou eu e cada um de nós. O título é o único que faria sentido dados os escritos que lá estão e, sim, o sentido é esse, que os leitores me encontrem nu e nus se encontrem nas palavras lá escritas. Os escritos são somente o ascensor para a intimidade comportamental e sentimental de cada um de nós, são o ponto de encontro para mim e para os leitores.

Podemos dizer que este livro é essencialmente um desafio para si?
Francamente não. Esta obra em livro estava entalada na garganta há muito tempo. Foi um libertar daquelas inimigas que mencionei acima, só isso. Nada mais.

Diz que a dada altura da sua vida se apaixonou por Camões, Antero de Quental, Florbela Espanca e Fernando Pessoa. Para além do gosto de escrever poesia, o que é que todos eles tinham em comum para despertar a sua atenção?
Está claro que todos eles “são” gente que escreve acerca da dor da existência, da angústia, da tristeza, do amor. Comecei por ler Camões, amei, e os outros vieram por consequência e, por isso, apaixonei-me por todos. Por outro lado, não me perdi de amores somente pela poesia e pelos poetas, li e pesquisei sobre diversos assuntos, desde a filosofia à psicologia e, claro, literatura clássica, mas confesso que todos tinham em comum um monte de escritos sobre os sentimentos do “vazio” e isso interessava-me.

Mas todos eles exerceram influência na sua formação de escritor?
Sem dúvida, até esta entrevista exerce influência na minha formação de autor, escritor, enfim. É como um chamamento: não foi por acaso que me rodeei do que me rodeei em miúdo, era o que me agradava, era onde sentia, era a minha casa e, sim, todos foram a base para a minha formação, de outro modo não sei como seria.

Define-se como poeta ou alguém que gosta de brincar com as palavras?
“Poesia” e “brincar” na mesma frase não dará bom resultado (risos).
Nunca me defini como poeta, até porque não o sou; porém, não sei o que é brincar com as palavras, mas sei que não o faço. Sou alguém que escreve, só isso.

Mas define-o enquanto escritor?
Isso sim, porém, assumo-me um autor. O dicionário diz qualquer coisa como “pessoa que escreve”, por isso, literalmente sou escritor. A verdade é que não vejo que o escritor é somente alguém que escreve, é alguém que vive inteiramente para isso. Um escritor não pode ser alguém que escreve nos tempos livres – odeio ouvir coisas dessas também. O escritor é o individuo que dedica involuntariamente a sua vida à escrita, à criação de algo de valor.

O que o leva a dizer muitas vezes que “escrever é um ato doloroso”…
Bem sei que essa ideia de que escrever é um acto doloroso é rotulada por muitos como antiga ou romantizada, mas não a encaro de outra forma. Eu entrego a minha vida à escrita, não sei como se pode ser escritor sem essa dedicação e isso dói, dói muito desesperar por dias maiores e eles têm apenas 24 horas. Dói muito ver o tempo a passar sem que se crie algo de valor e essa é a primeira razão para eu assumir que escrever é um acto doloroso. A segunda razão é a busca insaciável pela perfeição, o caos vivido entre o escritor e o papel ou o teclado enquanto olha para uma frase e não consegue avançar sem a ornamentar com a finalidade de lhe acrescentar valor, é a segunda razão. Ser escritor é viver para a escrita 24 horas por dia, um minuto a menos e não se é escritor.

Tem recebido críticas e referências de consideração, nomeadamente do escritor Richard Zimler, que o cita como um escritor «jovem promissor da literatura». São afirmações como esta que o fazem continuar a sonhar?
Sonhar não. Acrescem responsabilidade apenas e isso é muito. Todas as críticas e afirmações e citações da imprensa e de gente das letras, da arte e cultura em geral e dos meus leitores e seguidores são bem recebidas, nada minimizo. Francamente são bem vindas.

Qual é o seu local preferido de inspiração?
Eu preciso de um sítio onde disponha de caneta, de papel, de um teclado, de cigarros e de um só barulho – o que eu queira fazer. Só isso. Inspiração? Tomara eu alguma vez ter passado por alguma experiência onde coubesse essa coisa estranha e desconhecida, de nome inspiração.

Hoje o que acha que procuram os leitores quando procuram o seu livro?
Procuram uma experiência para toda a vida, procuram algo de valor e esperam encontrar isso no “A nu”, procuram encontrar o que eu digo que lá está. Acho que é isso que procuram.

Mas acha que o leitor é sempre alguém próximo ou um ser distante que tem que ser conquistado?
Numa versão romantizada eu assumiria que é alguém próximo, conhecido ou desconhecido para o autor que pretende abraçar a palavra escrita, contudo, na realidade editorial e literária que vivemos, eu tenho a noção de que o leitor tem de ser conquistado mas com verdade, só isso é justo para o autor, para a obra e para o leitor.

Tem formação em teatro e línguas aplicadas. O poeta também acaba por ser actor?
Pior do que isso. O poeta é um sem número de personagens. São caminhos diferentes por estradas iguais. Acho que todos somos actores de uma forma ou de outra.

Actualmente está a escrever aquele que será o seu primeiro romance, que chegará em 2015. O que nos pode para já adiantar?
Bem, estou a trabalhar num romance que sairá em 2015 e posso adiantar que traça indubitavelmente uma história de amor e obsessão que chega a roçar o pandemónio e o caos do ser humano na sua plenitude mental.

Mas os direitos de autor deste romance também vão reverter para instituições, como aconteceu com o seu primeiro livro?
O valor dos direitos de autor da obra “A nu” reverte integralmente para duas entidades e isso é algo que me realiza como ser humano, contudo, não posso, para já, adiantar que o mesmo aconteça como o romance.

Qual é a melhor forma de definirmos o Rui Sobral?
Rui Sobral é um autor, escritor… como quiserem, que não sabe se é triste ou feliz (risos) e que adora criar algo de valor e que vive para isso. Vomita “obrigado” a todos os que me dão a sua verdade e isso fica tatuado no meu coração. É um autor que tem os melhores leitores do mundo. É um afortunado. É um incansável apaixonado pela profundidade do ser humano. É um violador de sensações dos outros e um ladrão de sentimentos. É alguém que não gosta de falar de si na 3.ª pessoa (risos).

Jornalista: António Gomes Costa
Foto: Carlos Vilela

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3 Comments

  1. o meu conhecimento roça o autor ao de leve, mas os seus olhos são como duas janelas fechadas na timidez de quem não as sabe abrir, quem consegue penetrar o seu olhar, entra numa viagem alucinante e algo mística, com uma certeza, quem entra sai diferente com toda a certeza.Parabéns pela entrevista, inquieta, impertinente, cirurgica.O meu agradecimento ao Rui Sobral por ter a coragem de desnudar as nossas almas,confundindo a dele. Um abraço R.M.Cruz

    1. este e o rui simples honesto inteligente bom carater luta pelo qquer vai em frente filho tu mereces q mais posso dizer orgulho me mto de tudo q dizes fazes tens um grande caminho para percorrer vai devagarinho q chegas la bjao MAE

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