Espetáculos Nacionais

Teatro Sá da Bandeira presta homenagem ao ator Ruy de Carvalho (Com vídeo)

É um verdadeiro senhor. Tudo aquilo que se escrever, ou disser, será sempre muito pouco para o definir como actor e ser humano. Aos 88 anos, o ator Ruy de Carvalho é um exemplo para todos nós.
Recebeu-nos tranquilamente no Teatro Sá da Bandeira, poucas horas antes de ser homenageado pelos responsáveis do Teatro. “É uma grande alegria, pois há muitos anos que já não vinha cá. Sinto-me novo, estou numa casa que gosto muito, onde trabalhei muito, passei alguns dos melhores momentos da minha vida profissional. Hoje recordo grandes colegas que trabalharam comigo”, mostrando-se muito satisfeito ao ver aquela que foi, “provavelmente”, a primeira casa de espectáculos do Porto recuperada.

Foi nesta sala de espectáculos que Ruy de Carvalho se apresentou pela primeira vez no Porto, há mais de 64 anos, com a peça «Está lá fora um inspector», na qual contracenou com João Villaret, Josefina Silva, Maria Lalande, Igrejas Caeiro e Assis Pacheco. A homenagem aconteceu depois do espectáculo “Trovas e canções, atores, poetas, cantores”, um espectáculo inédito da filha do actor, Paula Carvalho, e do seu marido, Paulo Mira Coelho, que reúne também o filho e o neto do actor, João e Henrique de Carvalho, respectivamente.
A emoção era visível ao longo da entrevista, principalmente quando se reavivavam memórias do teatro e das gentes do Porto. “As pessoas são também um ex-libris desta cidade” e, quanto a esta homenagem, “dá-me mais responsabilidade, mais orgulho de ter nascido em Portugal e estou honrado por esta homenagem no Porto”.

A homenagem incluiu o descerrar de uma placa comemorativa no interior daquela sala de espectáculos do Porto e contou com a presença de várias figuras publicas da cidade, de uma representante do pelouro da cultura da Câmara do Porto e de muitos admiradores, familiares e amigos. “Vou ficar ali ao lado do Ribeirinho”, gracejou.
Ao fim de quase 70 anos de profissão, mais cinco de preparação, onde fez o Conservatório e Teatro Amador, o actor garante que, ao longo de todos estes anos, o “teatro ensinou-me a amar” e existem coisas na sua carreira de que já não se recorda. Mas uma coisa tem a certeza: “Tenho sido um homem feliz com a profissão que escolhi, não tive dificuldade em ser actor e defino-me como um profissional amador”. Acredita que todo o trabalho de um actor “é constantemente efémero, porque acaba sempre no seguinte”.

Ruy de Carvalho falou-nos também do seu livro, que editou este ano e que relata a cumplicidade vivida com a sua cadela durante 16 anos. “Naná, o meu amor de quatro patas”, foi escrito com a ajuda da sua filha Paula Carvalho. “A Nana merece todo o meu carinho pela companhia que me fez ao longo de todos estes anos”. Com este livro o actor quer lembrar que “os animais não são para abandonar, mas sim para respeitar e aproveitar o amor que eles nos dão e a companhia que nos fazem”.

Ruy de Carvalho explicou tranquilamente que os seus pais eram viúvos “e eu tinha irmãos dos dois lados. Dois deles eram actores. Saíram para um trabalho e, quando voltaram, eu tinha nascido” (risos). Um dos maiores mestres do teatro e da cultura em Portugal e o primeiro actor a fazer televisão no país, garante que “a idade dá experiência, mas é necessário também juventude” pois, “os mais novos é que nos trazem uma nova energia e um novo sonho”. E, apesar da idade, que não esconde, “o importante é não pensar nela e viver um dia de cada vez”.
Ruy Alberto Rebelo Pires de Carvalho nasceu a 1 de Março de 1927, em Lisboa. Estreou-se aos 20 anos no Teatro Nacional, na comédia ‘Rapazes de Hoje’. Desde então, a vida do actor nunca mais parou.
Aos nove anos, e ainda na Covilhã, já dizia que queria ser actor. “Ainda hoje acho que tenho jeito para representar, sou aventureiro e nunca tive medo de andar sozinho”.
Relativamente aos trabalhos: “É como tudo na vida, uns melhores do que outros, mas tento fazer sempre o melhor da minha parte e com a mesma humildade”. Ao longo destes anos, o teatro “ensinou-me a ter respeito pelos meus semelhantes”.
Destacando os momentos mais importante da sua vida, emocionou-se ao falar dos filhos e da mulher. “Foram, e vão ser sempre, as coisas mais importantes para mim. A minha mulher, que já não está entre nós, acompanhou-me durante 62 anos, namorámos nove e casei com ela em 1953 e ainda hoje permanece como minha companheira permanente, não me deixa, apesar de já cá não estar”.
Ruy de Carvalho diz que, apesar do público respeitar os artistas, “por vezes, é muito curioso e quer saber coisas que não existem” e “acreditam em mentiras que se escrevem em alguma imprensa mentirosa e, depois, as pessoas querem saber se fizemos aquilo ou não”. Entende que na “vida profissional têm todo o direito de o fazer”, mas, quanto à vida pessoal, não, porque “somos cidadãos normalíssimos e ninguém gosta que lhe entre na vida privada”.

Durante a nossa conversa, viajou pelo tempo e pelas memórias, destacando que, em 1998, cumpriu o sonho de interpretar o ‘Rei Lear’, de William Shakespeare, no Teatro Nacional, assinalando dessa forma os 50 anos da sua carreira. “Foi sem dúvida um dos momentos mais marcantes da minha carreira”.
Ruy de Carvalho também fez várias séries televisivas, novelas e inúmeros filmes.

O sinal de partida do actor no cinema foi dado em «Eram 200 irmãos», de Armando Vieira Pinto, em 1952. Trabalhou ao lado de Manoel de Oliveira em filmes como «Non ou a Vã Glória de Mandar» (1990), «A Caixa» (1994) e «O Quinto Império – Ontem Como Hoje» (2004).

António Gomes Costa

Fotos: Hugo Viegas

 

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