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Lourenço Henriques afirma: “Todos nós devemos ao Porto, o nome do nosso país”

Amante de uma boa conversa, simpático, calmo, homem de humor muito peculiar, eis alguns dos principais ingredientes que marcaram esta nossa primeira entrevista de 2016. Lourenço Torres Henriques, de 39 anos, gosta de dizer que não é actor, “faço biscates”. Para si, um actor representa “sempre de corpo inteiro, até quando está a fazer dobragens de desenhos animados”, pois explica que a diferença está na forma como “canalizamos a energia”.

O seu nome tem feito parte de várias novelas, séries de televisão e cinema. Lourenço é pai de três filhos e diz ter aprendido desde muito cedo a fazer outras coisas para complementar o seu trabalho de actor. “Escrevo, realizo, faço música… é preciso tocar muitas campainhas para subsistir”, afirma.

Questionado se ao fim de todos estes anos de profissão ainda acorda cheio de dúvidas quanto à profissão que escolheu, assume que a mesma está certa, “o mundo é que está errado”.

O gosto pela representação nasceu cedo. “Foi-me dado a ver, na escola, que seria um ofício no qual poderia ser competente”. Mais tarde, ainda no liceu, decidiu experimentar e “correu bem” (risos).

Numa altura em que o mundo vira mais uma página do calendário, Lourenço Henriques assume-se um homem “que não perdeu a infância de vista” e lamenta não encontrar, para já, motivos para estar optimista. “Vamos ver. Pode ser que Portugal vença o Europeu de Futebol” e, quanto a 2015, diz que lhe apetece dizer “vade retro, Satanás!” (risos).

Quanto à época festiva que vivemos, assume que há muitos anos que “não vejo esse significado mágico do Natal”. Aquilo que diz ver é simplesmente uma óptima época para os “comerciantes e para o fisco, que arrecada mais dinheiro por via de um maior movimento comercial”. Tirando isso, “acho que é um período em que se escavam ainda mais as desigualdades do mundo”, frisa.

Quanto lhe falámos da cidade do Porto, respondeu de imediato que aquilo que mais lhe agrada na invicta é a sua “história”. Tem vários amigos por cá, alguma família, mas garante não ter uma ligação pessoal com esta cidade. “Penso que todos nós devemos ao Porto, pelo menos, o nome do nosso país. É um bastião muito importante na História de Portugal e isso, por si só, estabelece uma ligação especial com todos os portugueses”.

Recordou as primeiras vezes que passou pelo Porto em trabalho há cerca de 20 anos. “Tive uma banda de rock. Ou melhor, cruzávamos rock com música popular e tradicional portuguesa. Fui ao Porto nesse âmbito, enquanto músico, tocar em programas de televisão”. Mas não só a música o levou até esta cidade. Também por aqui passou em filmagens, em várias ocasiões, mas sempre como realizador. “Num documentário sobre a História de Portugal e no making of de dois concertos do José Mário Branco, nos Coliseus do Porto e de Lisboa”, recorda.

Neste momento, dirige uma companhia de teatro, que tem a sua base em Mafra. “A autarquia tem focado muito do seu trabalho na cultura. O teatro é um dos ramos dessa aposta. Vou sempre fazendo teatro na minha casa mãe”, o Teatro Independente de Oeiras, e também vai trabalhando, “umas vezes mais outras menos, em televisão”.

Numa conversa sem pressas nem reservas, assume que a formação é o caminho natural na escolha de quase qualquer profissão. “Dá ideia de que apenas para ser político não é necessária uma formação específica. Para ser actor, assim como para ser médico ou advogado, é preciso adquirir conhecimento, não só da profissão, mas das bases”; daí que “a formação é essencial”.

Lourenço Torres Henriques não escondeu nesta entrevista os sonhos de criança. “Queria ser oficial do Exército, porque era isso que via em casa. O meu avô era oficial da Armada, mais tarde foi piloto aeronáutico e o meu pai oficial do Exército”. Já na adolescência “quis ser músico (aí sou autodidacta, nunca adquiri formação específica, o que foi um erro), mas não funcionou tão bem como seria necessário para singrar”, reafirma.

Ao longo destes anos de profissão, lembra que já teve sorte e já teve azar, mas “a sorte não pode ser medida apenas no âmbito profissional. Na esfera privada, tenho tido muito mais sorte do que azar”. Para Lourenço Henriques, o palco é o “habitat natural dos actores, assim como o mar é o habitat natural dos tubarões”, embora “também haja tubarões em aquários. O teatro é um templo” (risos).

Para Lourenço, ser actor é também uma forma de vida como tantas outras profissões. “Ter um restaurante é uma forma de vida. Os donos dos restaurantes – aqueles que trabalham nos seus restaurantes – estão obrigados a uma dedicação extrema ao seu ofício. Quase todas as profissões condicionam as pessoas que somos na esfera privada”, defendeu. Quanto à insegurança dos atores, diz que existe de tudo. “Talvez a exposição a que estamos sujeitos ponha a nu as inseguranças de uma forma que outras profissões não põem”. Recorda, no entanto, que existem profissões em que as inseguranças “são muito perigosas. Não gostaria de ser operado por um cirurgião inseguro” (risos).

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