Entrevistas

Nuno Moreira reconhecido como um dos heróis da nação

Nuno Moreira da Fonseca, o enfermeiro que ficou conhecido por partilhar fotografias que emocionaram o país.

Nuno Moreira é enfermeiro há 12 anos e está na linha da frente, na luta contra a COVID-19. Há cerca de 8 anos na área de infeciologia no hospital Curry Cabral, em Lisboa, foi através das fotografias que mostrou ao país o cansaço de lutar contra um vírus totalmente desconhecido. Uma imagem vale mais que mil palavras, mas as mesmas mil não chegam para explicar a guerra que se trava neste momento em cada hospital. 

Texto: Andreia Gonçalves
Fotos: Nuno Moreira

Agência de Informação Norte – A população aplaude o trabalho de todos os que estão na linha da frente. Mas, será que tem noção da sua real luta?
Nuno Moreira
– A população tem aplaudido o nosso esforço é um facto. Aplauso esse que nós (equipa) prezamos. São estas demonstrações de apoio e carinho que todos nós sentimos e que ainda nos unem mais nesta batalha, para conseguirmos vencer/ultrapassar esta guerra dos nossos novos tempos.
A população sentiu, mas acima de tudo foi consciente, tiveram noção da gravidade da situação, porém não da nossa luta titânica e real, dado que não estavam presentes o que para muitos será certamente uma realidade longínqua e ainda bem.

A União faz a força! Como se passa energia aos colegas de trabalho quando a única coisa que têm visível é o olhar?
Eu trabalho no serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral há 8 anos, hospital de referência desde a primeira hora para a Covid 19 em Portugal e mais precisamente na região de Lisboa. Como se percebe, neste serviço o nosso trabalho é desenvolvido sempre com patologias infeciosas e de risco não só para os doentes como também para os profissionais de saúde.
Dado isto temos por isso uma preparação e formação adequada e conhecendo nós tão bem e trabalhando tão proximamente soubemos estar à altura da conjuntura e das necessidades do momento.
A nossa realidade diária é sempre a presença de máscara por isso a comunicação entre nós e também com os doentes muitas vezes passa apenas por um olhar. Sempre se disse que os olhos são o espelho da alma e de facto é com eles que contactamos, pois todas as nossas expressões faciais são apagadas por aquele utensílio tão impessoal quanto essencial que nos protege, a máscara.

Quais foram as maiores dificuldades até agora Nuno na luta contra a Covid-19?
As maiores dificuldades são o lidar diariamente com o desconhecido desta doença, as horas de trabalho, a falta de descanso o perceber cansaço no rosto de cada um de nós (equipa multidisciplinar).
Perceber a apreensão e o medo dos doentes, todos sabem que o enfermeiro é a referência emocional de um doente uma vez que passa com eles 24 horas sob 24 horas.

O objetivo das fotos é passar a mensagem”

Foi por isso que começou a mostrar através do Instagram as fotos que valem mais do que mil palavras?
O objetivo das fotos é passar a mensagem da realidade vivida, das dificuldades e dos momentos mais complicados, querendo assim apelar ao empenho de todos, e consciencializando a população.

O que precisavam que a população realmente entendesse para diminuir a vossa carga laboral?
Basicamente que tivessem em conta as diretrizes da Direção Geral da Saúde, que procurassem informar-se regularmente acerca da evolução da situação da pandemia e deixar um apelo para não facilitarem considerando que não estamos livres de uma nova vaga de infeções como a está a acontecer presentemente na zona de Lisboa.
Este não é um vírus apenas de agora, será um vírus para sempre, por isso temos que nos consciencializar que teremos que adotar novos comportamentos no futuro.
A incerteza de tudo neste contexto que estamos a passar de facto não ajuda a que a população haja por vezes da maneira mais correta, no entanto as constantes divergências e mudanças de atitude por parte das entidades governamentais e da saúde conforme vai entendendo a doença também não ajudam.
Hoje indica-se uma forma e uma estratégia na ação e amanhã tudo pode mudar, não se subentenda nenhuma crítica objetiva da minha parte, mas tendencialmente a população fica apreensiva especialmente os mais idosos e isolados socialmente com tão bruscas mudanças na forma de combate e medidas cautelares na propagação deste vírus num tempo onde as indicações deviam ser mais objetivas e precisas.
Sempre preconizei o uso de máscara de proteção nos transportes e serviços públicos, por forma a dar uma imagem de credibilidade e assunção do verdadeiro perigo desta pandemia, aligeirou-se a situação por forma a não criar apreensão na sociedade e isso desresponsabilizou especialmente as camadas mais jovens da população. Note se a contradição do ministro que vem dizer agora que não existe estudos sobre a proliferação e contágio do vírus nos transportes públicos, isto tao só porque não existem capacidades de resposta, isso sim de mais e melhores transportes públicos.
Também de referir as constantes dúbias indicações acerca do confinamento. A uns era solicitado o dever social de permanecerem em casa, sendo-lhes inclusivé vedado estar com os familiares mais próximos e a outros era permitido manifestações políticas e sociais, este tipo de incongruências gerou a vontade objetiva a todos de voltarem a estar juntos, e os jovens especialmente não conseguiram deixar de aproveitar tais incongruências para se reunirem em grande número.

“Foi duro, penoso e ainda vai continuar a ser”

O que se pensa ao deitar depois de consecutivas horas de trabalho na luta com contra este vírus?
No início foi complicado porque eramos muito poucos para tantos doentes, e não fosse a nossa condição de profissionais qualificados deste serviço de infeciologia ainda seria mais difícil, o descanso era pouco e por vezes tínhamos que assegurar mais um turno e voltar ao serviço poucas horas depois, ora porque chegavam mais doentes, ora porque os nossos colegas tinham que prestar assistência em casa aos filhos ou familiares mais próximos. Trabalhavam-se 8 a 16 horas seguidas no contexto referido e o pouco tempo que nos restava era muito pouco para o descanso necessário.
Só pensávamos como seria o dia seguinte, qual a evolução da pandemia a capacidade de resposta adequada e se algum de nós ia também passar para o outro lado da barricada nesta luta sem quartel onde todos eramos alvos e ninguém estava a salvo duma potencial infeção.
Foi duro, penoso e ainda vai continuar a ser.

As vacinas são a nova promessa. Faz sentido falar de vacinação contra um vírus que está em constante mutação?
A investigação médica não para e é necessário sempre encontrar respostas no combate às doenças e suas variantes, estarmos sempre alerta porque disso depende a humanidade, bem sabemos que dada a demografia mundial num planeta doente onde tão poucos são donos da maior parte da riqueza, onde milhões de pessoas morrem de fome e doenças num mundo global onde qualquer foco local se pode disseminar rapidamente, é imperioso continuar a investigar sempre com mais meios, no concerto das nações mais ricas e com maiores recursos.
Por isso faz sentido falar em vacinas, faz sentido falar em investigação no combate não só deste vírus como de muitos outros que embora em mutação, como acontece sempre nestas situações, também os tratamentos se vão mutando e melhorando para atenuar o sofrimento da condição humana.

Complete esta frase…Quando tudo isto passar…
Para mim, de certa forma, isto nunca passará. Porque ainda que passe nada será como dantes e não, não vai ficar tudo bem porque muito se perdeu, desde os nossos familiares e amigos que partiram, e ainda não sabemos se os doentes curados não vão desenvolver outras patologias por terem sido infetados.
O mundo praticamente parou e a esperança deu lugar ao desespero de muitos milhões, teremos que ser resilientes e uma vez mais acreditar que vamos vencer este combate.
Sou enfermeiro há 12 anos. De forma genérica iniciei a minha prática clínica como responsável de uma unidade móvel de saúde, passando para o meio hospitalar trabalhando e desenvolvendo o meu curriculum em várias áreas como a medicina, cirurgia, bloco operatório e neste momento como já referido na área de infeciologia há 8 anos.

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