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Vídeo: Ricardo Fonseca, um escritor da vida, das relações e da alma

Começou a conhecer-se melhor através da escrita. Ricardo Fonseca é um jovem de 31 anos e poderá ser uma das mais iminentes promessas da literatura poética portuguesa. Licenciado em enfermagem e a fazer mestrado em cuidados paliativos, despertou para a escrita com apenas 12 anos, tendo publicado o seu primeiro livro aos 25 anos.
Assume-se como um homem de emoções, onde cada palavra surge como uma extensão do seu ser, definindo-se, mostrando quem é e como é, pois afirma ser um escritor da vida, das relações e da alma. Ricardo Fonseca define-se principalmente como um escritor vivencial e aprecia cada existência com a sua importância e papel na sua vida. Para o jovem escritor, escrever é um ato de coragem. Conheça melhor nesta entrevista Ricardo Fonseca.

Escrever para si é um acto de coragem?
Sim, para mim escrever é de facto um ato de coragem, mas que está relacionado mais com o conteúdo do que o ato em si. Ou seja, a coragem está relacionada com aquilo que escrevemos e com o facto de arriscarmos a partilha das nossas emoções, do que e quem somos, tendo sempre em conta as múltiplas interpretações que podem surgir dos leitores. A coragem está relacionada com o quão dentro de nós nos permitimos mergulhar, desvendar e conhecer. Só quem tem coragem para essa descoberta é que pode escrever sobre si mesmo.

Como se define enquanto escritor?
Defino-me como um homem de emoções, onde cada palavra surge como uma extensão do meu ser, definindo-me, mostrando quem e como sou! Sou um escritor da vida, das relações, da alma! Defino-me como um escritor vivencial, apreciando cada vivência com a sua importância e papel na nossa vida.

Qual é a melhor forma de descrevermos o livro Reflexos?
O livro Reflexos, como o próprio nome indica, tem como objetivo convidar cada leitor a mergulhar dentro de si de modo a compreender alguns processos e situações do seu dia-a-dia que interferem com as suas emoções e relações.
Um reflexo é uma reação a um determinado estímulo e, neste sentido, posso descrever este livro como um conjunto de reações aos estímulos da vida, das relações pessoais, profissionais e de igual modo como um estímulo para que os leitores reajam a cada palavra lida.

Que diferença existe entre este e os primeiros?
Os primeiros livros «A Chave do Labirinto» e «Calcorreando Percursos» são livros mais intimistas, pois contêm histórias da minha vida, descrevendo situações que vivi, emoções que senti e outras que não sabia como sentir pela incompreensão das mesmas. Ao mesmo tempo, constituíram um processo de descoberta de mim mesmo e de igual modo de revelação para todos os leitores, mesmo sendo pessoas que se relacionavam comigo.
O último livro já é o resultado das várias interrogações e descobertas que fui fazendo ao longo dos anos, que me levaram a desenvolver o conhecimento que tenho de mim mesmo e assim poder partilhá-lo com provas reais, relatos verídicos e experiências pessoais.

Percorrer o país com a apresentação do livro tem um sabor especial?
Sim, tem um sabor emocional e pessoal. É a oportunidade de partilhar o que sou, o que vivi com cada leitor. A oportunidade única de cuidar de quem me lê.

Esta veia de escritor teve influência no seu curso de enfermagem?
A altura em que frequentei o curso foi quando escrevi mais, quando vivi as situações mais marcantes em vários contextos e quando senti a necessidade de partilhar como era a minha vida, como compreendia o que me acontecia. Influenciou de certa forma o curso, ao dar-me ferramentas de compreensão, de lidar com algumas situações que presenciava e que me eram difíceis. Mas sinto que foi a enfermagem em si que influenciou muito a minha forma de escrever, a minha paixão pelas palavras e a minha percepção do poder da escrita na compreensão das emoções, dos comportamentos, das relações.

Escrita do Autoconhecimento. É um workshop que percorre o país. Escrever para conhecer é o seu lema?
Sim, é, de facto, o lema que utilizo para descrever a terapia da Escrita do Autoconhecimento. Quando escrevemos, enveredamos por um percurso de conhecimento que atinge vários níveis e patamares. Fazemos viagens ao passado e conseguimos reinterpretar alguns fenómenos que nos aconteceram e que marcaram a nossa vida, atribuímos significado aos processos diários e conseguimos escrever sobre o que nos poderá acontecer e o que queremos para o nosso futuro.
Quando escrevemos, iniciamos um ciclo que nunca termina, como se desenrolássemos um novelo de situações, desembaraçando todos os nós, que são aquelas situações que não ficaram resolvidas e que ainda nos causam incómodo e até mesmo aquelas que continuamos a viver num tremendo comodismo. Quando escrevemos, conhecemos quem somos e o que queremos e a forma como nos relacionamos.

Fica mais fácil perceber com o auto conhecimento o que se passa ao nosso redor?
Quando nos conhecemos verdadeiramente, apesar de ser um processo contínuo com novas aprendizagens diárias, conseguimos olhar em nosso redor e analisar as situações de forma mais objectiva, quer sejam situações onde estamos incluídos, quer situações que se passam à nossa volta.
Quanto temos consciência da forma como nos sentimos, como nos damos aos outros e como aceitamos a presença do outro na nossa vida, adquirimos uma maior compreensão do que faz sentido na nossa vida, do que queremos e só o auto conhecimento é capaz de nos oferecer essas capacidades e aprendizagens.

Quer com isso dizer que, através da escrita, apercebemo-nos das emoções, comportamentos…
Apercebemo-nos de muitas situações e, acima de tudo, da importâncias que tiveram ou estão a ter na nossa vida, mesmo que não tenhamos consciência das mesmas. Conseguimos identificar alguns padrões, ou seja, situações que vamos repetindo vezes sem conta ao longo da nossa vida, com as mesmas emoções, com as mesmas ideias, apesar de locais, contextos e pessoas diferentes.
A escrita permite, através da sua leitura e muitas vezes de uma orientação assertiva para um dado processo, reinterpretar situações, reviver a situação de forma mais objetiva e, em alguns desses casos, atribuímos novos graus de importância, criamos novas dinâmicas, encontramos novas soluções e estratégias que nos permitem crescer, desenvolver e ser mais felizes.

Como vê a escrita, o jornalismo e os escritores em Portugal…
Portugal é um país de escritores, desde os mais célebres aos anónimos, que ainda lutam para que as suas palavras cheguem aos leitores, sejam lidas e reconhecidas pelo mérito que têm. Sinto que em Portugal ainda há grandes bloqueios para os pequenos autores motivados por diversos interesses sociais, económicos e muitas vezes nada culturais. É um vasto mar onde muitos escritores se sentem perdidos sem bóias de salvação, sendo assim necessário recorrer a outras estratégias para serem lidos e conhecidos.
O jornalismo tem atravessado, a meu ver, por diversas fases que vão ao encontro das fases pelas quais o nosso país tem atravessado. Porém, noto que grande parte do jornalismo precisava de redefinir os seus conceitos e as suas estratégias, pois podemos falar de situações reais, que não são nada positivas, mas de forma encorajadora, em vez de calcarmos mais na ferida e apostarmos numa cultura de culpabilização e de apontar o dedo ao vizinho do lado e, agora passo a expressão, “por a sua galinha ser mais gorda que a minha”.
É urgente que a escrita seja direcionada para o positivismo, para o otimismo, empreendedorismo, o encontro de estratégias que permitam os leitores evoluírem, arriscarem e se desenvolverem como seres humanos e em sociedade.

Se escrevesse um livro onde o espaço retratado fosse o mundo, onde estariam concentradas as suas atenções?
As minhas atenções estariam todas centradas nas emoções e nas relações pessoais. Seria um mundo retratado emocionalmente, explorando o que nos une, o que nos afasta, como poderíamos criar novas sociedades baseadas na entreajuda, na solidariedade. Exploraria cada emoção individual e depois as coletivas de modo a representar como um novo mundo, onde cada ser humano, aceitando a sua realidade, poderia ser parte fundamental da construção de uma nova realidade, de novos paradigmas.

Com que corrente literária mais se identifica?
Identifico-me com algumas correntes literárias, como o romantismo com um toque de existencialismo. Para mim, a minha escrita é uma prosa-poética rica em metáforas, que fazem com que o leitor faça o seu próprio percurso de descoberta para encontrar a interpretação que lhe faz mais sentido, abraçando alguns processos de identificação ou não, mas que lhes permite criar a sua nova realidade.

O que sente depois do seu livro estar pronto?
Quando vi o meu livro editado e a ser apresentado em vários locais do país, senti-me realizado por ter concretizado um sonho que foi idealizado com Amor. Senti-me grato por cada etapa vencida na sua concepção, grato por cada pessoa que esteve a meu lado e contribuiu para a realização deste sonho. Em simultâneo, sinto-me a percorrer o meu caminho de vida, a viver a minha Missão de Vida: Cuidar do Outro, quer profissionalmente, quer por palavras.

A venda deste livro está associada a uma campanha de solidariedade a favor da Associação Nomeiodonada. Que campanha é esta?
A campanha que desenvolvo com a venda deste livro e também dos outros livros já publicados reverte a favor da Associação Nomeiodonada, com 20 por cento das vendas. Esta associação apoia famílias de crianças com doença crónica e está a construir a 1.ª Unidade de Cuidados Paliativos Pediátricos em Portugal, para que seja criado um espaço fora do hospital onde estas crianças e famílias possam ficar, mantendo os cuidados necessários, mas estando num ambiente quase familiar. É um projeto inovador que merece toda a nossa atenção e, como está relacionado com a minha área de estudos académicos e com a minha atividade profissional, não poderia ficar indiferente.

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2 Comments

  1. Vi quando passou pela RTP mas ali foi tudo muito rápido. Gostei muito desta reportagem.Mostrou ser uma pessoa de grande sensibilidade.

  2. Conheci recentemente a página do Ricardo e tinha desde já ficado curioso com o seu trabalho! Gostei da entrevista pois contribuiu dinamicamente para a apresentação do autor e das suas actividades.
    De louvar a campanha de cariz solidário e social.
    Felicidades e sucesso!

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