Sociedade

Covid-19: Em Ovar serena-se o medo que fazia acumular mercearia “debaixo da cama”

Pequenos comerciantes de Ovar, concelho sob cerca sanitária e geográfica devido à pandemia de Covid-19, disseram hoje ter-se atenuado na clientela o medo que vinha motivando tanta procura, que as compras excessivas estariam a acumular-se “debaixo da cama”.
A expressão é de Silvina Alves, proprietária do supermercado Europa, que há 65 anos funciona junto à praia de Esmoriz, no referido concelho do distrito de Aveiro, e que, por estes dias, chega a ter uma fila à porta para que, dentro do estabelecimento, não se movimentem ao mesmo tempo mais do que duas funcionárias, a dona e três clientes.
“As pessoas procuram mais produtos de higiene, charcutaria. Mas, levam de tudo, com medo de que acabe. É um caos de bradar aos céus e parece que o mundo todo lhes vai cair em cima. Esta semana atenuou um bocadinho, mas nem sei o que esta gente fazia a tanta coisa. Só se estivesse a guardar tudo debaixo da cama!”, declara.
Apesar das palavras fortes, o tom de Silvina é tranquilo, até porque, para a situação atual gerada pela pandemia de covid-19, “levar a coisa com calma é o único remédio”.
Os ajustes vão-se fazendo: equipamento de proteção só há para o ‘staff’ e os fregueses têm que tomar as suas próprias cautelas; o abastecimento nos ‘cash&carry’ de concelhos vizinhos ficou indisponível porque não há autorização policial para sair de Ovar, por muito que os bens em causa sejam de primeira necessidade; a distribuição de jornais tornou-se mais irregular e, havendo oferta, os clientes aproveitam-na de imediato; e tabaco “já não se encontra porque deve andar esgotado em todo o lado”.
Se nos primeiros dias da quarentena geográfica Silvina contabilizou faturas mais elevadas entre a clientela, que permaneceu quase inalterada, esta semana já não é bem assim. “Nota-se que as pessoas já começam a ficar sem dinheiro. Como a indústria fechou e muita gente já não vai receber o mesmo, começam a pensar melhor antes de comprarem tudo feitos malucos”, avalia.
Desenfreamentos ou contenções à parte, os jogos de azar mantêm os mesmos níveis de procura e é uma funcionária de Silvina que os descreve: “As pessoas continuam a gastar o mesmo em Euromilhões, Totoloto e essas coisas. A única diferença é que agora vão riscar a raspadinha lá para fora, para quem está na fila poder entrar cá dentro mais rápido”.
Conceição Grade também passou a ter mais pressa nos atendimentos e a reduzir o diálogo com os clientes ao mínimo, para evitar o risco de contágio.
Dona do Supermercado Sameiro, na vila de Cortegaça, reorganizou o trabalho e a sua vida pessoal de forma a cumprir novas tarefas: além de atender os clientes presenciais, que agora incluem “muita gente nova que nunca tinha entrado na loja antes”, também passou a fazer entregas domiciliárias, reunindo a lista de compras que lhe é enviada por telefone ou internet, depositando o respetivo cabaz à porta da casa indicada e depois recebendo o devido pagamento por transferência bancária, para se esquivar à contaminação por notas e moedas.
À noite, quando consegue parar no sofá e encontrar disponibilidade mental para isso, faz então alguns telefonema aos fregueses mais antigos.
“Como evito falar muito no supermercado, acho que é um respeito que lhes devo depois. Temos um laço afetivo há muitos anos e sei que, para algumas pessoas, estas chamadas são a única comunicação que têm durante o dia todo”, afirma.
Quando os fornecedores começaram a recusar cumprir a antiga ronda por Cortegaça para lhe entregarem ‘stock’, Conceição ficou preocupada, mas não lhes levou a mal.
“Esse trabalho também é serviço público e devia continuar, mas eles dizem que têm família, que não se querem vir meter no meio do ‘bicharoco’ [coronavírus] e eu tenho que respeitar-lhes a decisão, até porque nem toda a gente consegue lidar com isto com o mesmo sangue frio”, defende.
Nuno Sousa, proprietário da Padaria e Pastelaria de Arada e da Tradições e Sabores no centro de Ovar, foi dos que reagiu racionalmente às primeiras notícias sobre a covid-19 e se preparou cedo.
De cansaço patente na voz, elucida: “Ainda antes de ser decretado o estado de calamidade em Ovar, deixámos de ter serviço à mesa, passámos a receber só um cliente ao balcão de cada vez e pusemos na rua uma fila de segurança”.
O ‘feedback’ da clientela foi “muito bom logo de início”, esses comportamentos preventivos foram adotados sem contestação e, se a semana passada o consumo era maior e mais aflitivo, agora a procura parece ter estabilizado, à medida que “as pessoas perceberam que não vai faltar comida e que não precisam de acumular”.
Medidas de higienização nas duas padarias já eram muitas, como exigido à indústria alimentar, mas Nuno diz que agora, encerrado que está o fabrico de pastelaria, todos os funcionários se dedicam exclusivamente ao pão, “lavam as mãos ainda mais e mudam de roupa algumas vezes ao dia”.
Sem dificuldades no acesso a matéria-prima, o trabalho na padaria manter-se-ia o mesmo, caso não se verificasse o corte absoluto das encomendas para restaurantes, maioritariamente encerrados, mas a mudança mais significativa é a que se observa ao nível do espírito.
“Nunca pensei ver o desespero com que as pessoas procuravam o pão nos primeiros dias”, explica Nuno. “Se calhar era uma coisa dos tempos do meu pai, quando se passava mais fome, mas eu nunca vi nada assim e o que noto é que, de repente, as pessoas deixaram de olhar para o pão como algo fútil, sempre disponível a um preço irrisório, para o encarar como um bem escasso, que lhes pode faltar de um dia para o outro”, conclui.

Alexandra Couto, da Agência Lusa. via Saúde+TV

Tags
Show More

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Close