Entrevistas

Marco Horácio: “Eu no Norte sinto, algo, que não encontro noutros lugares”

Marco Horácio nasceu a 6 de janeiro de 1974, na Alemanha e se lhe pedir para dizer alguma palavra em alemão, “Liebe” vem em primeiro lugar.  O humorista/ator e apresentador de televisão tem fobia a cães e garante que o agente Simões tem fobia a anedotas que não sejam engraçadas. Preocupado com a perda da nossa identidade Cultural, o Rouxinol luta para colocar os espetáculos em andamento, porque a sua equipa e o público merecem. 

Texto: Andreia Gonçalves
Foto: DR

Marco Horácio defina-me Rouxinol Faduncho em poucas palavras…
É um ego do tamanho do Mundo. (risos)

Quixote está tatuado no seu braço. Se ele passasse por Portugal, hoje, o que diria?
Quixote lutava contra monstros, ignorância e fraqueza humana. Acho que, se ele, chegasse ao nosso País, agora, respirava bem fundo três vezes e pensava vale a pena ou não vale a pena…? Mas, acredito que ele iria sempre à luta! Ele acredita que pode, de alguma maneira, fazer da realidade dele, da sua realidade mais onírica, sonhada, passar para a vida das pessoas…  que tudo tem solução e pode ser resolvido!

Em percentagem, o Marco Horácio é mais sonhador ou mais realista?
Como sou alemão, sou muito racional. Sou 75 % racional e 25 % sonhador. Mesmo no trabalho, durante o processo criativo, sou exigente, organizado, e racional. Só em palco é que sou mais solto, expansivo, descontraído, e criativo e parva da minha pessoa.  Levo o humor muito a sério, porque o público merece!

O melhor dia da sua vida, foi…
O dia do nascimento do meu filho, Guilherme, sem dúvida…. Foi o nascimento dele e o meu renascimento.

E quando abraça o Guilherme?
É a melhor coisa do Mundo. Ele que está agora a entrar, na adolescência, começa a ter vergonha de me dar um beijo em público, (algo normal nesta idade). Mas há algo que lhe digo desde pequenino, pois pode deixar de dar-me beijos, mas, o abraço vou cobrar sempre. Abraço é conforto, é amor, é proteção. E é fundamental, mais do que um beijo, o abraço é toda a energia de um corpo que cria a conexão com outra pessoa. Mesmo, neste tempo, com luvas, com máscara, com fatos de proteção é sempre um abraço. É imperativo nestes tempos estranhos e difíceis, devemos abraçar, os nossos, que sabemos resguardados com força.

Um convite para ir comer Sushi é irrecusável, certo?
Sim, sem dúvida! Para mim e para o Guilherme. Dei a provar ao meu filho, com apenas 3 anos. O Sushi é uma renda de casa (risos).  E ele fez um som de HUMMM…. e eu disse estou tramado. Depois desse dia, posso oferecer outras opções e o sushi ganha sempre! Apesar de ser bom cozinheiro, e fazer uma massa à bolonhesa maravilhosa e uma batata assada com frango delicioso… quando convido alguém para vir cá a casa dou sempre aquilo que eu, realmente, gosto!

O que o deixa com um formigueiro no corpo?
Finanças, IVA e IRS. A falta da humanidade e de educação deixam-me com comichão.

E na mente?
Formigueiro e ansiedade, na mente, neste momento, é ver toda uma classe artística que não sabe como vai ser o futuro. Não há respostas, ainda, concretas. O estado tem de fazer mais, estamos à beira de perder a nossa identidade cultural. Há muitos artistas a procurarem uma outra opção para sobreviver. Em dois meses de confinamento os artistas fizeram tudo para dar o que podiam aos portugueses, para que se esquecessem um pouco, da situação que estamos a viver.  Agora é o Estado que tem de retribuir.

Dos seus amigos, do Levanta-te e ri, qual deles venceria o Got talent?
O Fernando Rocha vence tudo. Um homem que dá positivo no teste do COVID-19, sete vezes, vence tudo. O Fernando simboliza a minha grande admiração pelo Norte. Somos amigos há muitos anos e sei que, neste momento, ele deve estar, como eu, a tentar virar-se do avesso para conseguir arranjar trabalho para muita gente…

O que gosta do Norte, Marco Horácio?
O Fernando Rocha levou-me a um restaurante em Penafiel. que nem sequer tinha ementa, o dono do restaurante fez uma carne deliciosa e bebemos uma pomada fantástica. E, depois, saímos de lá muito contentes. Eu gosto muito do Norte, as pessoas têm uma energia e um carinho grande por mim, parece que estou em casa, em Vieira de leiria. Eu no Norte sinto, algo, que não encontro noutros lugares.

Quantas cartas de amor já escreveu até hoje?
Eu quando era novo, era muito romântico, escrevia poemas, cartas de amor… Escrevi muitas…

Vamos falar do filme da treta…
Com o grande António Feio, que tenho tantas saudades dele. Faz tanta falta! A forma de ele estar na profissão era tão certa, humilde e defensor dos nossos direitos.   António feio e José Raposo foram os meus mestres. Sinto-me abençoado de ter bebido destas duas grandes fontes humanas e profissionais.

“A cura é a libertação do passado”. Comente…
Não! Para mim, a cura é a aceitação do passado e que faz de nós o que somos, hoje, e a partir daí voamos.

Liberto-me de todos os medos destrutivos….”
Eu tento. E ter a noção de que é preciso já é um passo importante.

“Estou disposto aprender todos os dias”…
Sempre, até para dar o meu melhor na minha profissão.

 

Há alguém que merece ser trazida para esta conversa. A sua referência maior, a sua mãe. O que lhe apetece dizer sobre ela?

Eu não consigo encontrar defeitos na minha mãe. Ela era um ser de luz, e esta foi uma grande lição de vida, porque ela teve uma infância muito difícil. Quem me dera a mim ser 50 por cento daquilo que foi a minha mãe. Foi uma luz que não passou indiferente a todos os que a rodearam. Quando ela partiu as pessoas vinham ter comigo para me dizerem o que ela fez por essas pessoas. O meu filho lembra-me muito a minha mãe. Ele tem a bondade dela e isso notei desde muito cedo. Em tudo o que faço, penso sempre se posso acrescentar algo na vida dos outros. O Rouxinol, desde há quinze anos, serve para pôr as pessoas bem dispostas. É desta forma que lido com o meu trabalho. Não ligo às audiências, nem se outros aparecem mais nas revistas.
O que me importa é que as pessoas, no final dos espetáculos ou programas, fiquem com um sorriso, por aquilo que me viram fazer…

O brilho das luzes e da fama não lhe tiram os pés bem assentes da terra. Porquê?
Eu sinto que o meu crescimento pessoal passa por vários pontos. Por exemplo, quando vou para a maquilhagem, peço para me tirarem só as olheiras, pois quero mostrar de facto quem eu sou ao público. Eu vou fazer o meu trabalho, dou o meu máximo, sempre, e depois vou para casa de forma natural.
Eu encaro a minha profissão de uma forma séria e natural. Sem me abrilhantar.

 

 

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