Entrevistas

“Será que gostamos assim tanto da cultura como afirmamos?”

Isabel Stilwell é jornalista e escritora. Olha  connosco os temas da atualidade, da pandemia à cultura. Os seus livros de mulheres notáveis e a certeza que no próximo ano, que já está à espreita,  haverá mais uma surpresa literária. 
Andreia Gonçalves
Agência de Informação Norte – Isabel estamos em “dias do avesso”. Como vai a cultura sobreviver a esta pandemia?
Isabel Stilwell – Com muita dificuldade, mas acredito que sendo o setor mais criativo vai conseguir desbravar caminhos novos. Mas temos de apontar o dedo a nós mesmos: os palácios e museus estão abertos desde dia 18 de Maio, podem ser visitados sem a confusão dos turistas de que tanto nos queixavam, têm dias em que não se paga e, no entanto, estão praticamente vazios? Será que gostamos assim tanto da “cultura” como afirmamos?
Fundou e dirigiu durante alguns anos a revista pais e filhos. Se tivesse que escrever um editorial, agora sobre o tema “Cidadania” que está em discussão que mensagem passaria aos pais? E aos filhos?
A que escrevi numa crónica de opinião no Jornal de Negócios quando esta discussão começou: que os pais devem confiar mais na educação que dão aos filhos e prepará-los para serem capazes de argumentar a favor das suas convicções mesmo em ambientes adversos ou perante quem pensa de outra maneira. E, claro, envolverem-se na vida das escolas, estarem atentos aos programas académicos, não para andarem constantemente em sobressalto mas para aproveitarem as ocasiões para conversar com os filhos sobre os assuntos que consideram mais controversos. Acredito que a grande força da educação é o exemplo. E a grande arma o espírito crítico, o ensinar a pensar.
Quais são os direitos da criança portuguesa que vê colocados em terceiro plano ou até esquecidos?
Neste tempo de Covid, a falta de recreios, de poderem brincar ao ar livre, de serem encafuados em casa, sem oportunidades de esticar as pernas. Por consequência, preocupa-me o excesso de peso e a obesidade, um corpo que pesa e fica para trás, sem a agilidade de seguir a mente, com o qual devia ser uno. Mas a minha grande preocupação, a que me acompanha há décadas, são as crianças depositadas em instituições, onde acabamos – como sociedade – por continuar o maltrato de que as salvámos. Queria que as equipas e os tribunais fossem mais céleres a decidir o futuro destes meninos, e que encontrassem em tempo útil uma família. Mas, atenção, uma família que fosse acompanhada e ajudada na difícil tarefa que é adotar uma criança que já sofreu muito.
Uma mulher apaixonada pela história, se tivesse que escolher uma Notável para romancear, de qualquer época quem seria?
Para além das dez mulheres sobre as quais já escrevi? O que não faltam são portuguesas extraordinárias que tenho vontade de conhecer, e dar a conhecer. Não lhe posso dizer quem é a minha próxima “notável”, mas daqui a um ano pode perguntar-me outra vez e digo-lhe com todo o gosto.
Os livros que nos tem escrito, sobre as nossas rainhas apaixonam, leitores de várias idades. Agora, também há livros para dar a conhecer aos mais pequenos quem foram as nossas rainhas. Este é um caminho inesgotável de trabalho fascinante. Pergunto.
Quero muito que as crianças e os adolescentes comecem a gostar de História, da nossa História, mais cedo… Já escrevi uma D. Maria II para os mais pequenos, há menos de um mês foi publicada D. Filipa de Lencastre, e em breve haverá mais. O feedback dos leitores mais pequenos – a partir dos seis anos, com a ajuda de um adulto, depois dos oito, sozinhos — é mesmo muito bom. Fico contente.
D. Manuel I – duas Irmãs para um rei, podia ser um guião para uma nova série, feita em Portugal, e por portugueses. Gosta da Ideia?
Gosto mesmo muito da ideia. Os personagens dos meus livros, as nossas rainhas ainda tão desconhecidas, podiam ser transformadas em séries fabulosas. Queria muito que acontecesse.
Qual tem sido o feedback internacional aos bestselleres D. Filipa de Lencastre, D. Catarina de Bragança e D. Maria II?
Dá-me um prazer enorme vê-los traduzidos e publicados em inglês, a língua dos meus pais. A existência dos livros em inglês tem tornado possível fazer chegar a nossa História mais longe, e desfazer alguns mitos, como por exemplo em redor de D. Catarina de Bragança, que mesmo os britânicos conheciam mal, embora bebam chá em todas as ocasiões. D. Filipa de Lencastre importa-lhes porque afinal a mãe do infante D. Henrique que deu novos mundos ao mundo é inglesa, e D. Maria II correspondeu-se semanalmente com a rainha Vitória, que conhecem bem. A comunidade de língua inglesa em Portugal tem mostrado imenso interesse nestes livros, porque lhes permite conhecer melhor a História do país onde agora vivem.
O que virá a seguir?
Por enquanto ainda é segredo.
Foto: DR
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