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Festival CA Vilar de Mouros: a história da liberdade em Portugal no palco da música e em Museu
Como uma aldeia isolada do concelho de Caminha se abriu ao mundo e saiu do anonimato, graças à música, e como é que, no mesmo palco, conviveram o antigo regime e os arautos da liberdade? É uma das histórias que vão ser contadas no Museu do Festival de Vilar de Mouros, que abre ao público no próximo ano, aquando da 61ª edição do festival, marcada para de 19 a 22 de agosto de 2026.
24 de agosto 2025

O Festival de Vilar de Mouros é a festa da música onde o valor da liberdade mais se fez sentir na história dos festivais portugueses. O mais antigo festival de música da Península Ibérica começou a ser realizado em 1965, antes da revolução do 25 de abril, e foi um dos palcos da convivência entre o antigo regime e a oposição.
Inicialmente criado pelo médico António Barg, como um evento de divulgação da música popular do Alto Minho e da Galiza, com o objetivo de transformar Vilar de Mouros num destino turístico, em 1968, além do fado e de grupos de folclore, a banda da Guarda Nacional Republicana atuou em Vilar de Mouros, no mesmo palco em que se ouviram também as vozes de cantores de intervenção, como Zeca Afonso, Carlos Parede, Luis Goes, Adriano Correia de Oliveira, Quinteto Académico+2 e Shegundo Galarza.
Em 1971, acabaria por realizar-se a primeira grande edição do Festival Vilar de Mouros, com a presença de Elton John, Manfred Mann, Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro e novamente a Banda da GNR, num clima de paz, amor e liberdade, que fez com o que o Vilar de Mouros desse ano fosse considerado o “Woodstock” português, numa alusão ao mítico evento realizado em 1969 nos Estados Unidos.
São memórias de tantas destas histórias que marcaram o decano dos festivais em Portugal que vão ser materializadas no Museu do Festival de Vilar de Mouros, O espaço ficará instalado na Casa do Barrocas, no Largo da Torre, será inaugurado e abrirá ao público no próximo ano, por ocasião da próxima edição do festival, marcada para de 16 a 22 de agosto de 2026.
Em entrevista à Agência de Informação Norte, o Presidente da Câmara Municipal de Caminha, Rui Lages, explica que a concretização do Museu do Festival de Vilar a de Mouros “era um sonho antigo das várias partes” e está, finalmente, materializado, ao abrigo de um protocolo entre a Câmara de Caminha e a Junta de Freguesia de Vilar de Mouros. O espólio do museu será “composto por muitos dos cartazes que fizeram parte das edições destes 60 anos do festival, por peças que foram deixadas por artistas que passaram pelos palcos de Vilar de Mouros e pela vivência que Vilar de Mouros proporciona aos artistas”.
Haverá também, nesse museu, fotografias, vídeos e “um apontamento muito importante à presença do Dr. António Barge, que foi o primeiro impulsionador do Festival de Vilar de Mouros”. Esse médico progressista convicto, que fez carreira em Lisboa, mas que nasceu e foi criado na aldeia de Vilar de Mouros, tinha o sonho de colocar essa aldeia do Alto Minho no mapa e acreditava que era possível fazer mais por aquela pequena povoação, à altura, quase invisível no então isolado concelho de Caminha. Abrir Vilar de Mouros ao país e ao mundo, através da música, mostrar essa pequena terra aos portugueses e aos estrangeiros, trazendo gente de fora – público e artistas -, ajudando a quebrar o isolamento territorial, infraestrutural e cultural de Vilar de Mouros e desconstruindo a máxima do regime do “orgulhosamente sós”, era ambição visionária do médico. O passar dos anos e o empenho de tantos mostraram que ele tinha razão.
As memórias que marcaram o Festival Vilar de Mouros, desde o seu arranque, em 1965, e das primeiras edições mais de cariz folclórico, passando pela expansão do evento para a música erudita e para o fado a partir de 1968, bem como a sua transmutação para o chamado “Woodstock” português”, em 1971, são testemunhos da resistência do Festival de Vilar de Mouros a hiatos e mudanças políticas ao longo de décadas e a dificuldades próprias de contextos políticos e económicos diversos e complicados, mostrando o perfil único e resistente desta festa da música. Atendendo a que todas essas etapas também foram marcos históricos, o museu terá a “curadoria do jornalista Fernando Zamith, que vai fazer aquele revivalismo, vai-nos trazer aquilo que foram as vivências destas décadas”, acrescenta Rui Lages.
Entre essas vivências, assegura o autarca, estão também episódios mais humanizados e de proximidade entre as pessoas. Diz Rui Lages que “os artistas quando cá vêm, sentem que estão em casa e partilham muito das suas vivências com os próprios campistas. Não raras vezes, vemos os artistas a fluir e a circular nos espaços de campismo, a quererem conhecer o que pensam os nossos festivaleiros e, não raras vezes, encontramos selfies dos artistas com os nossos festivaleiros. E é isso que torna diferente este festival: a proximidade, a união e a convicção de que estamos sempre em família”.
O carácter único e distinto do Festival de Vilar de Mouros é, portanto, outra característica que o museu pretende perpetuar, no sentido em que, “este festival, para além de um grande motor económico da nossa região do Minho e do Norte de Portugal é também um momento em que podemos afirmar o que de melhor temos no nosso concelho: o bom acolher, o bom receber, o abraço amigo, o grande sorriso que é dado pelas gentes do Alto Minho é por demais notório aqui. Quem vem, sente esta alegria, este contágio universal da música, que nos inspira a todos”.
Além desses momentos cúmplices, dos desafios vividos pelo Festival de Vilar de Mouros no passado e das histórias que fizeram dele o que ele é hoje, os olhos estão voltados para o presente e para o futuro. “60 anos de festival precisavam de ser chancelados e precisam de ter uma existência durante todo o ano, explica o edil caminhense. O objetivo do museu, acrescenta Rui Lages, é, por isso, “preservar e partilhar esse legado de forma permanente”, tornando o “festival vivo e visitável durante todo o ano, não apenas em agosto”. O autarca sublinha que “o festival não pode ficar fechado em apenas nestes 4 dias” e que o museu, que estará aberto todo o ano, é uma forma de “mostrar às pessoas o que fazemos aqui, durante 4 dias, ao longo de 60 anos”.
Tratando-se de um evento que “é muito mais que um festival, é um encontro de gerações, de músicas, de partilha e de promoção da liberdade”, o espaço museológico será também uma forma de honrar e homenagear “décadas de trabalho, de promoção cultural e artística que se afirmam no Alto Minho” e de reconhecer o Festival de Vilar de Mouros como um instrumento para “alavancar a cultura, a música, a arte no nosso território”.
Rui Lages mostra-se, ainda, satisfeito com a edição deste ano que “foi um sucesso, com pessoas, famílias, recintos cheios, animação, pessoas a percorrer estes caminhos de Vilar de Mouros, a desfrutar das praias de Vilar de Mouros”, numa “partilha única que só quem cá vive, quem cá vem pode sentir”.
O Presidente da Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, Ricardo Alves, também se manifesta “muito satisfeito, orgulhoso e feliz” porque no ano em que vai “sair da vida autárquica”, vê o projeto do museu concretizado e prestes a abrir portas e não tem dúvidas de que a edição deste ao ano do festival “fechou o ciclo com chave de ouro” e demonstrou que “é grandioso, monumental”.
Apesar de o Festival de Vilar de Mouros não se ter concretizado ininterruptamente ao longo dos seus 60 anos de vida (porque houve edições que não se realizaram, por constantes alterações de cartaz, por divergências entre organizadores, programadores e produtores e por desastres financeiros múltiplos), o Vilar de Mouros tem conseguido resistir às adversidades sem perder a sua identidade e o seu misticismo. A abertura de portas do museu, no próximo ano, será a extensão desse legado coletivo de um povo que resiste e que continua a ser casa das maiores conquistas da Revolução dos Cravos: a liberdade e a democratização da cultura.



