Cultura
Porto: Palmilha Dentada e CENDREV estreiam coprodução sobre liberdade e rutura nos Bonecos de Santo Aleixo
“O Auto da Revolta do Mestre Salas”, criação de Ricardo Alves, junta pela primeira vez a Palmilha Dentada e o CENDREV numa reflexão teatral sobre emancipação, poder e liberdade. O espetáculo passa pelo Porto, Gaia e Coimbra.
27 de maio 2026

A Palmilha Dentada e o CENDREV unem-se pela primeira vez numa coprodução teatral que cruza tradição popular, humor e reflexão política. “O Auto da Revolta do Mestre Salas”, com texto, encenação e direção plástica de Ricardo Alves, estreia-se no Porto entre 21 e 24 de maio, n’O Lugar, seguindo depois para o Auditório Municipal de Gaia, entre 27 e 30 do mesmo mês. Em junho, o espetáculo chega ao Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, para duas apresentações, nos dias 18 e 19.
O projeto resulta de uma aproximação há muito prevista entre duas estruturas com afinidades estéticas e dramatúrgicas, particularmente visíveis no modo como trabalham o humor e a dimensão satírica das narrativas cénicas. A colaboração entre a companhia portuense e a estrutura eborense estava prevista “há cerca de quatro anos”, explica Ricardo Alves, diretor artístico da Palmilha Dentada, citado em nota de imprensa.
“O convite partiu do CENDREV para em conjunto desenvolvermos uma coprodução”, refere o encenador, acrescentando que o desafio surgiu através do ator Ivo Luz, com quem mantinha já anteriores ligações profissionais. “Pareceu-nos engraçado trabalhar com a companhia eborense, que já conhecíamos há largos anos”, sublinha.
A dramaturgia parte do universo tradicional dos Bonecos de Santo Aleixo — uma das expressões mais reconhecidas do teatro popular alentejano e património cultural imaterial — para construir uma alegoria sobre a liberdade e os mecanismos de controlo. A narrativa acompanha o Mestre-Salas, personagem que interrompe a representação ao insurgir-se contra os manipuladores que conduzem a ação. A partir desse gesto de rutura, arrasta consigo a Prima e o Padre Chancas para um território de desordem e incerteza, onde as personagens se confrontam com a possibilidade — e o peso — da autonomia.
Sem referências nem orientação, as figuras libertadas oscilam entre a euforia da emancipação e a incapacidade de gerir a responsabilidade das próprias escolhas. A peça interroga, assim, a ideia de liberdade individual e a possibilidade real de controlo sobre o próprio destino.
Ricardo Alves enquadra o espetáculo numa linha de continuidade temática com anteriores criações da companhia. “Quase diria que este espetáculo faz uma trilogia com ‘O 25 de Abril Nunca Aconteceu’ e ‘Demokratia’. São espetáculos que falam da nossa necessidade de revolução e da forma como nos inserimos na sociedade, procurando transformá-la ou aceitá-la”, afirma.
Após esta temporada, a Palmilha Dentada volta a apresentar “Demokratia”, coprodução com A Pé de Cabra dirigida ao público jovem. O espetáculo estará em cena n’O Lugar, entre 3 e 13 de junho, com sessões aos fins de semana e feriados às 17h00 e, nos dias úteis, às 19h30.



